{"id":607,"date":"2024-04-28T20:36:13","date_gmt":"2024-04-28T23:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/?p=607"},"modified":"2024-04-28T20:36:30","modified_gmt":"2024-04-28T23:36:30","slug":"amor-e-identidade-leia-a-analise-do-espetaculo-wilson-coelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/2024\/04\/28\/amor-e-identidade-leia-a-analise-do-espetaculo-wilson-coelho\/","title":{"rendered":"\u201cAmor  e identidade\u201d, leia a an\u00e1lise do espet\u00e1culo, por Wilson Co\u00ealho"},"content":{"rendered":"<p>O mon\u00f3logo \u201cNo pod\u00eda estar sin querer a alguien\u201d (N\u00e3o podia estar sem amar algu\u00e9m), dirigido por Gustavo Delfino, \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o do conto \u201cD\u00faschechka\u201d, de Anton Pavlovich Chekhov, a partir de uma tradu\u00e7\u00e3o do russo para o espanhol por Alejandro Ariel Gonz\u00e1lez. Este conto, escrito em 1899, tem como tema central o amor, cuja personagem principal \u00e9 Olenka Plemyannikova.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-608\" src=\"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/whatsapp-image-2024-04-25-at-12.57.44-756x1024.webp\" alt=\"\" width=\"756\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/whatsapp-image-2024-04-25-at-12.57.44-756x1024.webp 756w, https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/whatsapp-image-2024-04-25-at-12.57.44-222x300.webp 222w, https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/whatsapp-image-2024-04-25-at-12.57.44-768x1040.webp 768w, https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/whatsapp-image-2024-04-25-at-12.57.44.webp 816w\" sizes=\"auto, (max-width: 756px) 100vw, 756px\" \/><\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o desse mon\u00f3logo por Ana Alicia Bacigalupi, que interpreta Olenka, aqu\u00ed como Laura, prop\u00f5e-nos algumas reflex\u00f5es. A princ\u00edpio, a obra se mostra ao que veio pela ep\u00edgrafe, um fragmento de \u201cO segundo sexo\u201d, de Simone de Beauvoir que diz: \u201c\u00c9 angustiante assumir uma companhia de vida. A sorte do homem \u00e9 que eles o for\u00e7am a realizar os caminhos mais \u00e1rduos, mas tamb\u00e9m os mais seguros; o infort\u00fanio da mulher \u00e9 que ela est\u00e1 cercada por tenta\u00e7\u00f5es quase irresist\u00edveis; tudo a incita a seguir o caminho da facilidade ao inv\u00e9s de convid\u00e1-la a lutar por conta pr\u00f3pria. Dizem-lhe que ela n\u00e3o tem o que fazer, sen\u00e3o deixar-se levar e que, assim, alcan\u00e7ar\u00e1 para\u00edsos encantadores; quando ela percebe, \u00e9 tarde, suas for\u00e7as se esgotaram.\u201d<\/p>\n<p>Na adapta\u00e7\u00e3o de Ana Alicia Bacigalupi, apesar de algunas mudan\u00e7as, no que diz respeito aos personagens que comp\u00f5em o conto, mant\u00e9m-se a ideia da narrativa original da rela\u00e7\u00e3o de Olenka Plemyannikova, aqui chamada de Laura, com os homens que amou, platonicamente, come\u00e7ando por seu pai e um professor de franc\u00eas. Depois, tr\u00eas outros que atravessaram a sua vida, no que diz respeito ao amor carnal e rom\u00e2ntico que marcaram a desgra\u00e7a dessa mulher.<\/p>\n<p>O primeiro, o senhorio e empres\u00e1rio circense dos Jardins Tivoli, Ivan Petrovich Kukin que, na obra de Ana Alicia Bacigalupi se chama Daniel Garc\u00eda e \u00e9 um diretor de teatro, oportunidade que aproveita para uma cr\u00edtica na rela\u00e7\u00e3o dessa arte com o seu p\u00fablico nos momentos atuais. Mas ela o perdeu muito cedo, pois morreu de um ataque fulminante.<\/p>\n<p>Depois, ela se envolve e se casa com seu vizinho Adriano que, no conto original se chamava Vasili Andreich Pustovalov e tamb\u00e9m era um comerciante madeireiro. Poucos anos ap\u00f3s, o perde carbonizado num inc\u00eandio, embora no conto de Chekhov teria sido por uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Novamente sozinha, acaba se aproximando e tendo um relacionamento com um veterin\u00e1rio militar que tamb\u00e9m n\u00e3o dura, porque \u2013 apesar de n\u00e3o morrer \u2013 ele volta para sua ex-mulher. Na obra de Chekhov, o veterin\u00e1rio se chama Smirnin. Faz-se interessante observar que, desses homens, na adapta\u00e7\u00e3o de Ana Alicia Bacigalupi, o diretor de teatro se chama Daniel Garc\u00eda, o madeireiro Adriano, n\u00e3o tem sobrenome e, o veterin\u00e1rio, nem mesmo nome. De certa forma, nesse relato de viol\u00eancia e amor rom\u00e2ntico da qual a mulher est\u00e1 submetida historicamente, parece que a estrat\u00e9gia da dramaturgia \u00e9 tentar colocar Laura como uma for\u00e7a feminina que resgata um pouco de suas for\u00e7as nesse universo patriarcal.<\/p>\n<p>Retomando a ideia primeira do conto de Chekhov tendo o amor como o tema principal, em \u201cN\u00e3o podia estar sem amar algu\u00e9m\u201d, trata-se de um amor revelado e rebelado. Revelado no que diz respeito a uma esp\u00e9cie de \u00e1gape que, conforme sua origem grega, pode ser o amor que se doa, o amor incondicional, o amor que se entrega. Mas ao mesmo tempo ele \u00e9 rebelado porque se coloca em xeque na medida em que na nossa sociedade ele produz uma autoviolenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 sugere o t\u00edtulo, \u201cN\u00e3o podia estar sem amar algu\u00e9m\u201d, a obra chama aten\u00e7\u00e3o para o fato da invisibilidade da mulher na rela\u00e7\u00e3o afetiva. A personagem Laura, por exemplo, na l\u00f3gica amorosa, nunca tem uma identidade, assim como para muitas mulheres. A obra propicia uma cr\u00edtica a essa identifica\u00e7\u00e3o com o \u201cideal\u201d que est\u00e1 na base de nossa sociedade machista. Esta mulher, a personagem Laura, sequer disp\u00f5e de palavras para expor as pr\u00f3prias ideias. N\u00e3o \u00e9 por acaso que, a cada um de seus relacionamentos com os tr\u00eas homens, todo o seu discurso n\u00e3o passa de uma reprodu\u00e7\u00e3o do pensamento deles.<\/p>\n<p>Faz lembrar um conto de Machado de Assis, intitulado \u201cIdeias de can\u00e1rio\u201d, sobre um p\u00e1ssaro que faz um discurso sobre o mundo a partir de onde fala. Quando est\u00e1 num antiqu\u00e1rio, diz que \u201co mundo \u00e9 uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o can\u00e1rio \u00e9 senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora da\u00ed, tudo \u00e9 ilus\u00e3o e mentira.\u201d Depois, na varanda de seu comprador ou novo propriet\u00e1rio, \u201cO mundo \u00e9 um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o can\u00e1rio, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais \u00e9 ilus\u00e3o e mentira.\u201d<\/p>\n<p>Assim \u00e9 o mundo de Laura, repetindo palavras que n\u00e3o passam de ideais encarnados dos homens, seja na arte, na seguran\u00e7a e, enfim, na maternidade, considerando que no final da obra ela cuida do filho do veterin\u00e1rio. \u201cN\u00e3o podia estar sem amar algu\u00e9m\u201d \u00e9 uma obra que denuncia essa sociedade onde a mulher n\u00e3o consegue romper com essa transcend\u00eancia que a deixa esperando, sem nunca buscar criar algo por si mesma para controlar os efeitos mortificantes da solid\u00e3o, num mundo que foi constru\u00eddo para que ela somente tenha identidade reconhecida a partir do homem, ou seja, o amor como o \u00faltimo reduto do patriarcado.<\/p>\n<p>Trata-se de uma obra de teatro para pensar nas consequ\u00eancias de uma sociedade que a todo momento ensina \u00e0s mulheres que viver o seu amor pr\u00f3prio se d\u00e1 pela sua nega\u00e7\u00e3o e estar sempre a servi\u00e7o do amor de um homem.<\/p>\n<p>Este \u201cNo pod\u00eda estar sin querer a alguien\u201d, foi apresentado no Centro Cultural \u201cLas Chicas\u201d, de Vivorata (Partido Mar Chiquita), na programa\u00e7\u00e3o do X Festival Internacional de Teatro Cl\u00e1sico Adaptado, do qual recebeu o pr\u00eamio de \u201cEspect\u00e1culo Destacado\u201d.<\/p>\n<p>*<strong><em>Wilson\u00a0Co\u00ealho\u00a0\u00e9 poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo, escritor com 27 livros publicados, assina a dire\u00e7\u00e3o de 28 espet\u00e1culos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Liter\u00e1rios pela Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense e\u00a0\u201cAuditor Real\u201d\u00a0do Coll\u00e8ge de Pataphysique de Paris.<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/2024\/04\/28\/amor-e-identidade-leia-a-analise-do-espetaculo-wilson-coelho\/\">Leia mais&#8230; &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":608,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_price":"","_stock":"","_tribe_ticket_header":"","_tribe_default_ticket_provider":"","_tribe_ticket_capacity":"0","_ticket_start_date":"","_ticket_end_date":"","_tribe_ticket_show_description":"","_tribe_ticket_show_not_going":false,"_tribe_ticket_use_global_stock":"","_tribe_ticket_global_stock_level":"","_global_stock_mode":"","_global_stock_cap":"","_tribe_rsvp_for_event":"","_tribe_ticket_going_count":"","_tribe_ticket_not_going_count":"","_tribe_tickets_list":"[]","_tribe_ticket_has_attendee_info_fields":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-607","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=607"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/607\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":610,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/607\/revisions\/610"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}