{"id":547,"date":"2023-12-22T14:18:04","date_gmt":"2023-12-22T17:18:04","guid":{"rendered":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/?p=547"},"modified":"2023-12-22T14:20:50","modified_gmt":"2023-12-22T17:20:50","slug":"arte-nao-e-cultura-wilson-coelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/2023\/12\/22\/arte-nao-e-cultura-wilson-coelho\/","title":{"rendered":"ARTE N\u00c3O \u00c9 CULTURA \u2013 Wilson Co\u00ealho"},"content":{"rendered":"<p>Em toda a minha trajet\u00f3ria de vida, tanto como artista de teatro, literatura e cinema, como professor de teatro, ci\u00eancia pol\u00edtica, filosofia, l\u00f3gica, \u00e9tica, etc., sempre me incomodou quando algu\u00e9m se manifesta dizendo \u201cn\u00e3o entendi nada\u201d. Por um lado, porque sempre entendemos alguma coisa a partir do significado que emprestamos para a concep\u00e7\u00e3o de vida que definem o que entendemos por mundo ou mundos. Depois, porque parece \u00f3bvio que quando n\u00e3o entendemos algo \u00e9 porque estamos colocando em xeque com aquilo que j\u00e1 concebemos como verdade. Mas o que \u00e9 a verdade sen\u00e3o estarmos de acordo com o fato real ou a realidade? Lembrando que a realidade tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 absoluta, mas fenomenol\u00f3gica. Geralmente, nunca me sinto \u00e0 vontade para falar em reuni\u00f5es em que as pessoas supostamente se predisp\u00f5em a falar sobre cultura. Quase todo o tempo e as vezes que pronunciam a palavra cultura, essas pessoas se referem \u00e0 arte ou aos artistas. Ali\u00e1s, numa sociedade dividida em classes (opressores e oprimidos) a verdadeira arte, como se pode comprovar ao longo da hist\u00f3ria, \u00e9 um movimento de contracultura. \u00c9 um tema complexo e que o PT \u2013 Partido dos Trabalhadores tem se esquivado a fazer uma discuss\u00e3o radical (de raiz, fundamento, base), desde a sua funda\u00e7\u00e3o (sou um dos fundadores do PT).<\/p>\n<p>Numa sociedade dividida em classes, conforme Marx, a arte n\u00e3o \u00e9 prop\u00edcia, exceto quando ela referenda (\u201cembeleza\u201d) o sistema ou quando \u00e9 a possibilidade de um bom investimento. E, ainda de acordo com o pensador alem\u00e3o, \u201co pensamento dominante numa sociedade divididas em classes \u00e9 o pensamento da classe que domina\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum que nossos parlamentares esbravejem afirmando suas defesas da cultura de forma altamente equivocada, como recentemente ouvi um dos nossos deputados dizer que \u201cuma povo sem cultura n\u00e3o tem hist\u00f3ria\u201d. \u00c9 poss\u00edvel que um povo n\u00e3o tenha cultura? Existe a possibilidade de algum ser humano n\u00e3o ter constru\u00eddo ou n\u00e3o estar construindo a hist\u00f3ria? Nem que seja pela suposta neutralidade ou omiss\u00e3o, todo ser humano faz parte da constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Ainda, de acordo com Marx, todos n\u00f3s fazemos hist\u00f3ria, n\u00e3o conforme gostar\u00edamos, mas de acordo com as condi\u00e7\u00f5es materiais de nosso tempo e a nossa compreens\u00e3o de mundo. E h\u00e1 tantos mundos quanto nossas linguagens e condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, n\u00e3o do ponto de vista financeiro, mas da forma de produ\u00e7\u00e3o de valores materiais e imateriais. Outros afirmam que n\u00f3s priorizamos a cultura \u00e9 que \u00e9 o nosso carro chefe. Mas parece est\u00fapido afirmar que o governo passado n\u00e3o investiu ou n\u00e3o gostava da cultura. Independente do gosto, ningu\u00e9m vive fora da cultura. Tudo o que o governo passado fez foi \u201cinvestir\u201d na cultura, mas na cultura do \u00f3dio, do fascismo, da intoler\u00e2ncia e da nega\u00e7\u00e3o da verdade, da diferen\u00e7a, da ci\u00eancia, etc.<\/p>\n<p>A cultura \u00e9 a forma como o ser humano d\u00e1 ou busca significado da sua exist\u00eancia, desde a sua rela\u00e7\u00e3o e entendimento com a natureza, consigo mesmo e com o outro. Nesse sentido, a cultura \u00e9 a maneira como o ser humano se organiza e realiza sua concep\u00e7\u00e3o de mundo, ou seja, cultura \u00e9 aquilo que se cultiva e que se cultua. E, numa sociedade burguesa, colonizada, mis\u00f3gina, preconceituosa e patriarcal, o que \u00e9 cultivado ou cultuado? O machismo, a viol\u00eancia, o tr\u00e1fico, o consumo, a aliena\u00e7\u00e3o, o racismo e todas as deifica\u00e7\u00f5es que sustentam o capital.<\/p>\n<p>Quase todas as \u201cfalas\u201d de nossos encontros redundam uma vez mais na manifesta\u00e7\u00e3o de artistas e burocratas, os primeiros como se estivessem no palco e, os segundos, na zona de conforto de seus gabinetes. Os primeiros se acreditam como classe, sempre ouvimos se colocarem como \u201cclasse art\u00edstica\u201d, de forma egoc\u00eantrica e prepotente. Os artistas n\u00e3o s\u00e3o uma classe, s\u00e3o uma categoria e, levando em conta a sociedade burguesa (dividida em dominantes e dominados), n\u00e3o passam de uma categoria de trabalhadores e que, infelizmente, a maioria destes est\u00e1 a servi\u00e7o da classe dominante, seja nos seus espet\u00e1culos, nas novelas, nos filmes, etc. Sem contar os patrocinadores que controlam ideologicamente o conte\u00fado de suas obras. Outra coisa que me engessa e n\u00e3o me deixa ver espa\u00e7o para me manifestar s\u00e3o esses discursos e propostas naquilo que dizem cultura quando querem dizer arte.<\/p>\n<p>Se pensamos fazer um encontro para tratar da sa\u00fade, o alvo \u00e9 a forma como devermos nos organizar para que a popula\u00e7\u00e3o tenha acesso \u00e0 sa\u00fade. Nesse caso o tema n\u00e3o se trata de uma redu\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho e de sal\u00e1rio dos m\u00e9dicos, enfermeiros e outras categorias que comp\u00f5em o universo dos hospitais, pronto-socorro, farm\u00e1cias, etc. Mas quando se diz respeito \u00e0 cultura, os debates redundam nas quest\u00f5es dos artistas, sem levar em considera\u00e7\u00e3o o \u00faltimo elo da cadeia alimentar que s\u00e3o os espectadores, os leitores, enfim, o povo que necessita ter voz e acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cultural e art\u00edstica do mundo, do pa\u00eds e da sua regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Dei aulas em diversas faculdades privadas, principalmente, de ci\u00eancia pol\u00edtica, filosofia, artes, etc. Mas me lembro de que quando lecionava na UFES, eu tinha quatro disciplinas, a saber: l\u00f3gica, hist\u00f3ria da filosofia, introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia e filosofia da hist\u00f3ria. Diante da letargia e descompromisso de muitas turmas com a consci\u00eancia de seu papel na hist\u00f3ria, eu sempre fazia uma provoca\u00e7\u00e3o, afirmando que eles tinham muita sorte de estarem numa universidade p\u00fablica e n\u00e3o correrem o risco de que pedreiros e gente do povo em geral (os que nunca tiveram a oportunidade de estudar e nem de ter seus filhos na universidade, mesmo sendo que esta tenha sido constru\u00edda com seus trabalhos e impostos) n\u00e3o estarem no port\u00e3o para lhes pegarem pelo colarinho e pedindo seus projetos para a melhoria de vida dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Da mesma forma, imagino o povo da periferia cobrando, dos artistas e do governo, o porqu\u00ea de tantos editais para a cultura se nenhum dos espet\u00e1culos de teatro, de dan\u00e7a, de m\u00fasica, cineclube, oficinas, etc. passam pelos bairros, associa\u00e7\u00f5es de moradores e escolas.<\/p>\n<p>No mais, muito de menos na nossa esquerda. Como pensar a cultura e a arte se os nossos sindicatos e centrais sindicais, a minoria mais ou menos combatente e a maioria apenas organizada para a manuten\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o de cargos de \u201clideran\u00e7a\u201d, diga-se de passagem, um obst\u00e1culo para uma revolucion\u00e1ria luta de classes? Como pensar num sindicato de esquerda que se reduz ao discurso de defesa dos trabalhadores no que diz respeito ao sal\u00e1rio e garantia de emprego? Mas como essa suposta esquerda sindical pode pensar o mundo se faz uma assembleia pontual dos direitos trabalhistas que s\u00f3 acontece esporadicamente? Como pensar numa esquerda em que esses sindicatos fazem um discurso de luta de classes numa assembleia de trabalhadores reduzido a rela\u00e7\u00e3o de capital e trabalho e que em nenhum deles exista um espa\u00e7o para alimentar uma rela\u00e7\u00e3o cr\u00edtica com a sociedade em todas as suas formas de organiza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Os sindicatos t\u00eam teatro? T\u00eam espa\u00e7os e oportunidades para a exist\u00eancia de um coral, um grupo de dan\u00e7a ou teatral, um projeto para a cultura popular? Podemos perguntar pela exist\u00eancia de centenas de coisas que comp\u00f5em o universo da classe trabalhadora e a resposta ser\u00e1 sempre n\u00e3o. As assembleias sindicais e, mesmo essas que geralmente que se fazem dizendo da cultura, n\u00e3o passam de um mero entretenimento e referendo de burocratas \u201cculturais\u201d que fazem do povo e do verdadeiro movimento cultural um objeto para o discurso institucional.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como pensar num projeto de pol\u00edticas p\u00fablicas para a arte a e a cultura se as respostas se d\u00e3o sempre no p\u00falpito institucional para resolver os problemas de um povo que n\u00e3o \u00e9 protagonista? Como pensar e elaborar editais de cultura que Acoloca os movimentos sociais ref\u00e9ns dos editais que n\u00e3o passam de um funil colocando os artistas concorrendo e disputando entre si mesmos o direito de expressar suas artes, limitados aos crit\u00e9rios da burocracia?<\/p>\n<p>Se todos temos o direito \u00e0 \u201ccultura\u201d, essa que muitos confundem com a arte, a maioria dos editais n\u00e3o passam de um engodo, criando um funil para contemplar os grandes atravessadores da produ\u00e7\u00e3o (eufemismo para produtores) que usam os artistas e o povo para escamotear a aus\u00eancia de uma verdadeira pol\u00edtica p\u00fablica nas artes. Trocando em mi\u00fados, esse projeto est\u00e1 de cabe\u00e7a para baixo, pois o papel do estado \u00e9 se organizar para atender a demanda social e n\u00e3o apenas criar editais para promover uma competi\u00e7\u00e3o entre os pr\u00f3prios artistas e sem levar em conta a popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na rabada dessa cadeia alimentar.<\/p>\n<p>Enfim, a arte n\u00e3o \u00e9 cultura, mesmo que n\u00e3o exista uma arte que n\u00e3o surja ou tenha como mat\u00e9ria-prima a cultura como seu objeto ou ponto de partida, mas faz-se extremamente necess\u00e1rio que a arte seja sempre uma possibilidade de colocar a cultura em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>P.S.: Este \u00e9 apenas um pequeno texto de desagravo diante dos discursos f\u00e1ceis que ultimamente tem assolado o pa\u00eds em nossas confer\u00eancias de \u201ccultura\u201d, de acordo com Voltaire, como se viv\u00eassemos nos melhores dos mundos poss\u00edveis. Trata-se de um resumo de um artigo que estou escrevendo com refer\u00eancias cient\u00edficas, ou seja, te\u00f3ricas (hip\u00f3teses comprovadas) e emp\u00edricas (experi\u00eancias humanas respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o das ideias e conceitos existentes no mundo).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-550\" src=\"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/WhatsApp-Image-2023-12-22-at-01.32.09.jpeg\" alt=\"\" width=\"563\" height=\"701\" srcset=\"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/WhatsApp-Image-2023-12-22-at-01.32.09.jpeg 563w, https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/WhatsApp-Image-2023-12-22-at-01.32.09-241x300.jpeg 241w\" sizes=\"auto, (max-width: 563px) 100vw, 563px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/2023\/12\/22\/arte-nao-e-cultura-wilson-coelho\/\">Leia mais&#8230; &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":550,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_price":"","_stock":"","_tribe_ticket_header":"","_tribe_default_ticket_provider":"","_tribe_ticket_capacity":"0","_ticket_start_date":"","_ticket_end_date":"","_tribe_ticket_show_description":"","_tribe_ticket_show_not_going":false,"_tribe_ticket_use_global_stock":"","_tribe_ticket_global_stock_level":"","_global_stock_mode":"","_global_stock_cap":"","_tribe_rsvp_for_event":"","_tribe_ticket_going_count":"","_tribe_ticket_not_going_count":"","_tribe_tickets_list":"[]","_tribe_ticket_has_attendee_info_fields":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-547","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=547"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":551,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547\/revisions\/551"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/550"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/wilsoncoelho.praxis.pro.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}